• Dulce Ribeiro

Há esperança


Perguntei para meu filho de 32 anos o que ele diria sobre o Dia Internacional da Mulher:

“Me sinto inspirado ao imaginar onde uma liderança feminina pode nos levar como sociedade.

O percurso é inspirador”.


Quantos movimentos, mortes e lutas foram necessárias para que Obama chegasse a

presidência dos Estados Unidos, por exemplo?

O movimento das mulheres não tem volta. Equal Pay, Me too, Time´s up são

manifestações de um caminho que há séculos vem representando a luta pela igualdade de

direitos entre homens e mulheres.


Há 227 anos atrás, Mary Wollstonecraft defendia que as mulheres deveriam ter o

mesmo direito à educação que os homens, que não estudassem apenas para se tornarem

“esposas ideais”. Em “A reivindicação dos direitos das mulheres” publicado no Brasil em 1792

pela Bomtempo, escreveu: “É assim, por exemplo, que a demanda por educação tem por

objetivo exclusivo permitir o livre desenvolvimento da mulher como ser racional, fortalecendo

a virtude por meio do exercício da razão e tornando-a plenamente independente”. Há dois

séculos atrás reivindicava-se a permissão para a mulher pensar, ter opinião validada, podendo

falar de igual para igual com os homens. Escreveu ela em 1787: “Desafortunada é a situação

das fêmeas, educadas de acordo com a moda, mas deixadas sem fortuna alguma”, no

livro Thoughts on the Education of Daughters (“Pensamentos sobre a educação das filhas”) – o

primeiro escrito em que uma mulher abordava a situação feminina na Europa.


Um século depois, em 1879, as mulheres brasileiras ganharam o direito de cursarem a

faculdade. As meninas haviam conquistado 50 anos antes o direito de estudar além do

primário (atual Ensino Fundamental 1), em 1827. O acesso à educação é um dos principais

recursos para emancipação das mulheres, antes relegadas à esfera doméstica. Com o direito

ao voto em 1932 e a criação da pílula anticoncepcional em 1960, as brasileiras conquistaram

mais alguns passos nesse lento e persistente caminho secular pela busca da igualdade e

liberdade.


O dia internacional da mulher é inspirado no Movimento Pão e Paz ocorrido na Rússia em 8

de março de 1917, há um século. Um grupo de mais de 90 mil operárias saiu às ruas de São

Petersburgo para protestar contra a fome e a Primeira Guerra Mundial. Os soldados russos se

negaram a ataca-las, alguns uniram-se a elas. A data escolhida pelas russas teve como

referência a tragédia ocorrida em 8 de março de 1857, quando um grupo de operárias da

indústria têxtil de Nova York se reuniu para protestar por melhores condições de trabalho,

contra os baixos salários e a jornada de 12 horas diárias. Foram brutalmente reprimidas pela

polícia. No mesmo dia, em 1908, outro grupo de operárias da fábrica Cotton, novamente em

Nova York, declarou greve contra as condições precárias de trabalho e ocupou a fábrica. A

resposta do dono ao movimento foi trancar o prédio com suas funcionárias dentro e incendiá-

lo, matando todas as mulheres que lá estavam.


Em 1945 a carta da ONU reconhece a igualdade de direitos entre homens e mulheres e, em

1975 adota o 8 de março como data oficial para as comemorações do Dia Internacional da

Mulher.

Em 2006, a lei Maria da Penha cria mecanismos de combate a violência doméstica no Brasil.

Em 2015, a lei do feminicídio classifica o assassinato de mulheres como crime hediondo.


Os movimentos de reivindicação pela igualdade representam a luta contra crenças

machistas que habitam o inconsciente de mulheres e homens ao longo dos séculos. Acredito que ainda teremos pelos menos mais um século para trazer consciência sobre novas formas de

pensar e agir sobre a igualdade de direitos.


Minha neta em seus 3 anos de vida já ganhou fogão, panelinhas, carrinho de

supermercado, bebês e bonecas loiras de olhos azuis, ouve que é linda e eu seguido a chamo

de “princesa”. Meu neto de 1 ano e meio, ainda nem caminhava e já tinha bola, carrinhos,

caminhões e caixa de ferramentas. Ele não vai ter aulas de balé, a não ser que teime e

reivindique a sua sapatilha, o que ainda poderá causar incômodos para seu pai.


A escritora nigeriana Chimamanda Adichie na introdução do livro “Para Educar Crianças

Feministas – Um manifesto” traz 15 sugestões, dentre elas ensinar as crianças a questionarem

a linguagem. A autora vê a linguagem como um repositório de preconceitos. Muitas das frases,

expressões e até adjetivos que usamos contêm esse sexismo. Entre os exemplos trazidos por

Chimamanda está chamar as meninas pequenas de “princesas” e nessa eu vesti a carapuça.


Já ouvi também “ela é lindinha, parece uma modelo”. Cuidar com as palavras e transformá-las

é entrar sem dó no inconsciente, trocando termos que reforçam crenças seculares, ditas em

vocabulário atual. Muda-se o termo, mas a lógica do pensamento permanece em séculos

passados.


As conquistas obtidas pelas mulheres ao longo de centenas de anos têm trazido

transformações para a sociedade. Somos muitas em salas de aula, mas poucas em cargos de

comando. Um modelo de liderança mais leve, acolhedor e sem a toxidade masculina é o que

imagino que teremos como referência em algum momento. Historicamente, há esperança.

Minha neta, caso tenha filhos, talvez consiga ver isso.

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