• Dulce Ribeiro

Conquigui!

Passei dez dias com meus netos na praia. A casa da Alegria em Ibiraquera com novos sons desde cedo era puro prazer, além dos habituais passarinhos e do barulho do mar.


Escutei dezenas de vezes a palavra “mamãe”, agora não mais dirigida a mim. Tive a sensação de ter sido mais ansiosa e irritada naquela época, a minha filha Roberta tem uma compreensão das necessidades das crianças que é impressionante, além de calma para ouvir e explicar.


O que mais me chamou atenção nesses dias foram as inúmeras tentativas de fazer algo, seguido da palavra “conquigui”, toda vez que meu neto Ravi de 2 anos e três meses a pronunciava diante de um feito. Ele se sentiu vitorioso por descer a escada sozinho, de bumbum, conforme orientação: “CONQUIGUI”! Ao encaixar um Lego difícil, subir sozinho na cadeirinha, ao colocar a sunga e, também, me alcançar de uma certa distância um copo com água, sem derramar ou cair. Essas inúmeras vitórias, frutos de tentativas que envolviam certos riscos, podem ter dado a ele diferentes possibilidades de autonomia e independência, além de abrir espaço para novas e desejadas conquistas.


Por outro lado, ao enfiar o dedinho errado na sandália Havaiana, a visível irritação e brabeza, manifestada por um “sapateado” descalço, explodiu no choro do “não conquigo”. Ele, relutante, aceitou ajuda. Porém, quando ofereci ajuda no jantar, já com uma colher dentro do prato dele, querendo agilizar, ele me parou: “não vovó, eu conquigo”. Independente do arroz fora do prato, do feijão no nariz, das mãos substituindo vez que outra o garfo, ele segue sem dúvida, sem crítica, querendo mais um feito, ao natural. Afinal, nós precisamos aprender a comer sozinhos.


As vitórias e frustrações do Ravi me fizeram pensar no quanto vamos reduzindo as nossas tentativas ao longo da vida e, por conseguinte, as possibilidades de celebrar as vitórias que somente a ousadia pode permitir. Por medo de não acertar e ser criticado, pelo excesso de autocrítica e necessidade de perfeição, nos tornamos menos ousados e corajosos a cada dia, desperdiçando as possibilidades de vitória oriundas de algumas tentativas que não deram certo em algum momento.


Esse danado do Ravi nem sabe o quanto aprendi com ele nesses dias, apenas observando a sua necessidade humana de ser alguém livre e independente. Todo ser humano é capaz de viver em liberdade, ousar, criar um mundo para colocar os seus talentos, nem que comece por descer a escada de bumbum.

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