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Conexões no presente

15.6.2018 | 17:31

Conexões no presente

                 A respiração nos traz para o presente. Toda vez que saímos do presente e nos pré ocupamos com o futuro, geramos ansiedade. Por outro lado, quando vamos para o passado, nascem as frustrações e os arrependimentos. Nosso cérebro é dominado por pensamentos sobre um tempo que não existe, ou seja, não servem para realizar nada,pois  tudo acontece no presente.

O que nos garante que estamos no agora é a consciência da respiração. Ao escutar o seu som, sentir o ar entrando nas narinas e os movimentos do tórax, do peito e ombros estamos exercitando viver o presente. É nesse lugar que construímos o sonho que está no futuro e aproveitamos as experiências do que já vivemos.

                    Em muitas horas do nosso dia nós não estamos presentes. A ansiedade é a prova disso. Ela mora no futuro, que pode ser até o minuto seguinte. O trabalho é forte concorrente da ansiedade e da desconexão, quando dele retiramos o sentir. Fazer atividades no automático é necessário, por exemplo, para escovar os dentes, dirigir, andar de bicicleta pentear os cabelos. Mesmo assim é necessário prestar atenção na ação. Agora, ouvir no automático é pendurar a placa  “volto já” enquanto o outro fala. É quando se escuta o outro, olhando ao mesmo tempo para o celular ou o computador: “pode ir falando que eu estou te ouvindo”.

                   Agora, se ao invés disso, for dirigida uma atenção, um olhar pode ser o início de uma conexão, uma conversa viva.

                   Há carência de conexão no mundo das pessoas, diferente do mundo virtual.

                   O automático traz a falta de atenção para o outro, para a tarefa e os sentimentos são excluídos.

                   Eu não ouvi o que ele falou, eu não vi que ele estava aqui, eu não prestei atenção em nenhum detalhe.

                     Como sair do automático?  Exercitando o presente. É preciso criar músculo de presente, dando funcionalidade para o ouvir, por exemplo. Se o ouvir tem um preconceito, um pré-julgamento sobre o outro, ele já é excludente. Dizem que é “ouvido seletivo”, o que para mim é desconexão, ouvindo a si mesmo.

                     Uma outra forma de desconectar é protagonizar o “dono da verdade”. É aquele que fala mais do que ouve porque tem mais experiência, porque é o chefe, o professor,o pai, porque sabe mais e pronto. Há, também, o intolerante. Aquele que ouve com pressa e interrompe qualquer raciocínio porque já sabe o que o outro vai dizer. Ele começa a ficar inquieto, impaciente e acha que todos são prolixos. Alguns até pedem para que o outro seja mais objetivo.

                     Outro fator de falta de presença é o medo. Diferente dos animais que só têm medo quando enxergam o seu perseguidor, nós temos memória. Assim, temos medo do que não está acontecendo, mas que supomos que acontecerá e isso nos paralisa.

                      Quais as possibilidades do presente? Desenvolvimento, criação, inovação, relações saudáveis, sentimentos autênticos, liberdade, conexão.

                      Então, antes de coordenar ou de participar de uma conversa, uma reunião é preciso, além de organizar a pauta de assuntos, preparar uma pauta emocional do presente. Como está o estado da nossa alma quando se entra naquele lugar. Como os sentimentos estamos levando? E com esses sentimentos que a reunião será boa, produtiva, participativa? Isso é conexão consigo mesmo, com o presente. É ter sustentabilidade no papel que se exerce, avaliando o impacto que causamos nos outros.

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Currículo oculto

4.11.2016 | 18:18

Currículo oculto

O Guilherme é cliente do nosso projeto de coaching solidário. Além de estudar geografia e namorar uma estudante de letras, ele é poeta. Para ela, dedicou esse poema:

” Minha Geografia
Sei que da lua surgiu
Sei sua órbita
Sei sua latitude
Suas coordenadas são onde meus braços te abraçam
Te vi naquela escada
E vi também que assim seria
Pois tu era familiar como geografia
A princesa das línguas com um pobre guia
Jamais imaginei que te merecia
A cada por do sol eu me apaixono
A cada rotação contigo eu caso
A cada passo teu eu serei a tua localização
Tu és o mapa da mulher perfeita
E vou ser sincero
Eu tenho uma queda por mapa
Vou te observar até o universo retroceder
E quando isso acontecer
Sei que juntos vamos prevalecer
Com tudo ou no meio do nada
Na religião e na ciência
Eu sempre irei te estudar
Então eu te imploro agora
Me ensine a falar.

Autor: Guilherme Dorneles Espíndola”

Aos 18 anos, com a tenacidade daqueles que chegam onde desejam, o Guilherme acredita no mundo que inclui, que não aprisiona as pessoas em modelos e que traz as mesmas condições para todos.

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Quem está na sua frente

17.6.2016 | 17:20

Quem está na sua frente

Há famílias leves, pesadas, bem ou mal-humoradas. Outras podem ser deprimidas, pessimistas, otimistas ou eufóricas. Há muito mais, se quisermos catalogar. Ao nascer, recebemos uma herança cultural preestabelecida. Alguns transformam mais ou menos o modo de ser e viver do próprio núcleo familiar ao qual estão sujeitos. Falo isso por conta dos inúmeros julgamentos que fizemos em relação a quem é diferente de nós. Passamos mais julgando e excluindo do que compreendendo a diversidade comum a todos: somos diferentes.

Quando criança costumava dormir na casa de colegas da escola. Lembro da Lu, que era carioca. Me chamava atenção que na sua casa falavam palavrões. O seu irmão mais velho era deprimido, um termo que só escutei aos 12 anos. Mais tarde, quando dizia “eu estou deprê”, lembrava do irmão da Lu, um guri quieto, olhar triste, parecido com o pai dela. Eu achava que eles sempre estavam brigados.

Outra família que eu considerava diferente da minha era a da minha prima. Eles conversavam sobre temas que eu achava profundos e polêmicos. Ali ouvi falar de Sartre, de Freud e de Santo Agostinho. Eles nunca viam televisão, dormiam tarde, depois das 23 horas, e não tinham o hábito de fazer juntos as refeições. Eles eram introvertidos, segundo o meu olhar de agora. Minha prima era considerada genial na escola, tinha poucas amigas, essas, do grupo das “crentes”. Tive apenas uma colega, visivelmente, gay. Se vestia e falava como os guris. Não tinha mãe, era filha única e morava com o pai, que era muito educado e dava atenção para nós, suas colegas. Fazia perguntas, nos servia as refeições, preocupava-se em nos agradar. Ela era humana, engajada e defendia os interesses da classe. Como presidente do Grêmio Estudantil, organizou a primeira exposição de arte, incluindo trabalhos de estudantes de diversas escolas. Seu pai ajudou na organização. Ela assumiu a homossexualidade mais tarde.

Na minha casa nós éramos gozados e críticos. Meu pai tinha um humor fantástico e nós ríamos muito juntos. Já a crítica era fruto de preconceitos e juízos extremos, sempre feitos com uma ironia inteligente, que, em algumas vezes, machucava. Minha mãe era alegre e centralizadora. Com meus irmãos eu tive pouco contato, eram bem mais velhos.

Somos fruto dessa árvore que é a família, responsável por nossas crenças, hábitos e atitudes. Além disso, as influências ao longo da vida nos tornam ainda mais únicos. É quando perdemos a consciência dessa dimensão humana que passamos a nos considerar mais ou menos, melhores ou piores que os outros. Somos apenas diferentes.

Esse olhar hierarquizado, preconceituoso e pequeno sobre nós mesmos é insustentável e injusto. A diferença é a condição para nos transformarmos. É o que pode nos completar. E é preciso começar a refletir sobre isso, para que possamos experienciar um mundo viável, que nos acolhe e inclui.

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